Filosofia e Teologia.

 

Sempre houve uma grande relação entre a Teologia e a Filosofia. Todos os acontecimentos, tais como: ruptura da unidade cristã do Ocidente, Reforma e Contra-Reforma, secularização da sociedade e da cultura, desenvolvimento do ateísmo, etc. ocorridos no século XVI, deram lugar a profundas mudanças e transformações culturais.

A essas mudanças, a filosofia não permaneceu estranha. Ao contrário, participou delas intensamente, algumas vezes fornecendo-lhes motivações ideais, como no caso da Reforma e Contra-Reforma, do absolutismo político e da tolerância religiosa entre outras e em todos os casos procurando interpretar seu significado profundo.

Aqueles que vão ser os pontos mais notáveis da filosofia moderna: a autonomia da razão, o espírito crítico e a condenação da metafísica, já são vigorosa e explicitamente afirmados pelos reformadores. Com o passar do tempo, alguns princípios da Reforma, em particular o da liberdade de consciência e o da separação entre a esfera espiritual e a temporal, tornaram-se patrimônio comum de toda a cultura moderna.

Nos séculos XV e XVI, os acontecimentos religiosos também contribuíram para criar uma nova compreensão do homem caracterizada pela liberdade e pela autonomia. Na Idade Média, a esfera religiosa estava rigidamente enquadrada num esquema hierárquico que dificultava as relações do homem com Deus. Para se chegar a Deus, era necessário passar por vários intermediários, a saber: padre, bispo, papa, missa, confissões ao padre, comunhão, rezas, indulgências, relíquias, rosários, peregrinações, abstinências, etc. Quando a credibilidade começou a fraquejar, os cristãos passaram a entender que a relação com Deus não podia ser dificultada por esse sistema de estruturas humanas e grosseiras.

A estrutura religiosa da Idade Média começou a vacilar no fim do século XIV com os acontecimentos que puseram a autoridade do papa em crise com o cativeiro de Avinhão, o cisma do ocidente face à existência de mais de um papa, etc. Depois a credibilidade foi mais comprometida com o abuso de relíquias e indulgências, pela simonia, pelo nepotismo e pela imoralidade do clero. Foi nesse ambiente que Lutero, fazendo-se intérprete de um sentimento bastante difundido em seu tempo, pode prover uma Reforma substancial da Igreja.

A Reforma protestante foi um grande acontecimento que marcou o fim de uma época e começo de outra. Tanto que alguns historiadores colocam o início da era moderna na afixação das noventa e cinco teses, na igreja de Wittenberg (1517). Foi um acontecimento essencialmente religioso, mas que causou profundas transformações políticas, sociais e culturais. A sua influência no desenvolvimento da filosofia moderna foi decisiva.

Por isso justifica-se um estudo bastante amplo, sobre as causa, os autores e os ideais da Reforma protestante. As causas são de origem religiosa, política, social e ideológica. A Reforma dentro da igreja romana tornara-se flagrante, como um remédio urgente para a cura das muitas chagas que afligiam a igreja. Cúria romana, cardeais e bispos eram corruptos e os próprios papas agiam, muitas vezes, como soberanos terrenos envolvidos nas lutas políticas, esquecidos da sua função principal de guia espiritual da cristandade.

A ignorância, o laxismo e a superstição alastravam-se entre o povo cristão e o baixo clero. A sutileza e a vacuidade caracterizavam o pensamento dos teólogos, baixezas e grosserias, enquanto os artistas e literatos se entregavam a indiferença, a imoralidade e a descrença. Todas as autoridades nas quais se apoiava a visão medieval do mundo e toda a república cristã estavam em crise. Para a criação de uma nova ordem espiritual e civil, as autoridades tradicionais não eram mais suficientes. Havia um anseio geral por libertar-se do jugo do papado e do império e para subtrair-se ao predomínio dos povos latinos.

Graças à convergência dessas muitas instâncias, é que se iniciou a Reforma. Com referência à filosofia, quase todos os reformadores, demonstraram hostilidade, embora, depois, na pratica, não tenham podido evitar de servir-se dela para elaborar suas doutrinas teológicas. (Filosofia mesmo, não é razão).

Lutero escreveu em 1520 três opúsculos, reconhecidos como os três principais escritos da Reforma: ‘‘à nobreza cristã da nação alemã’’; ‘‘a liberdade cristã’’ (onde apresenta uma ótima síntese da doutrina da justificação); e ‘‘o cativeiro babilônico da Igreja’’.

A filosofia não pode prescindir da teologia, nem a teologia da filosofia, pois as duas se inter-relacionam. Até a Idade Média a Filosofia foi usada para explicar as doutrinas cristãs de forma racional, ou seja, para dar uma base racional à teologia. Depois a filosofia adquiriu autonomia em relação à teologia. O pluralismo bastante acentuado das perspectivas filosóficas fez com que os filósofos modernos passassem a se sentir livres para apresentar qualquer sistema que contenha elementos de racionalidade. Assim encontramos sistemas que afirmam a existência de Deus, a criação do mundo, a imortalidade da alma, a liberdade humana, a lei moral, etc. e outros que as negam. Mas a autonomia da razão, o espírito crítico e a condenação da metafísica foram vigorosa e explicitamente afirmados pelos reformadores.

Os reformadores proclamaram a liberdade de consciência diante de qualquer doutrina e autoridade eclesiástica. Eles se recusaram a reconhecer no papa, na cúria e em todas as estruturas tradicionais (sacramentos, culto dos santos, peregrinações, indulgências, etc.), como intermediários válidos entre o homem e Deus e reconheciam a todo o cristão o direito de regular diretamente e por si mesmo, suas relações com Deus. A filosofia moderna participou ativamente, fornecendo motivações ideais na Reforma, contra-reforma e tolerância religiosa, procurando interpretar seu significado profundo.

Finalmente, podemos afirmar que a concepção religiosa trazida pela reforma protestante exerceu influência decisiva na evolução do pensamento moderno, principalmente nos países protestantes. Alguns aspectos do pensamento de Kant, Hume, Fichte, Hegel e outros somente podem ser compreendidos dentro da atmosfera espiritual criada pelo protestantismo. Depois, alguns princípios da Reforma, notadamente o da liberdade de consciência e o da separação entre o espiritual e o temporal, tornaram-se patrimônio de toda a cultura moderna.

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